Manaus - A falta de verba para dar continuidade ao estudo que aponta indícios da existência de um rio subterrâneo de cerca de 6 mil quilômetros de extensão embaixo do Rio Amazonas já vem limitando os trabalhos desenvolvidos pelos pesquisadores do Observatório Nacional (ON), instituição onde a pesquisa é realizada.
De acordo com a geofísica, pesquisadora da Universidade Federal do Amazonas (Ufam) e doutoranda Elizabeth Tavares Pimentel, responsável pela descoberta, o deslocamento a campo para medir a temperatura dos poços de todos os Estados da Bacia Amazônica precisará ser breve, em sua fase inicial.
“Tivemos financiamento da Fapeam (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas) até agora, mas o dinheiro acabou. Infelizmente a segunda fase da atividade de campo está suspensa até conseguirmos mais recursos financeiros”, explica.
Amazonas e Roraima, devido a facilidade de acesso, serão os primeiros Estados a terem a temperatura e a condutividade térmica dos poços analisadas. A atividade, financiada pelo departamento de pós-graduação do ON, terá duração de oito dias, sendo três em Roraima e cinco no Amazonas.
Elizabeth afirma que para concluir a pesquisa em campo seria necessário pelo menos R$ 76 mil, dinheiro utilizado na compra de passagens e equipamentos como uma sonda importada responsável por fazer as medidas de temperatura.
“No momento estamos fazendo o que dá para fazer com os recursos disponibilizados pelo Observatório, mas a suspensão das atividades deve se manter até o ano que vem”, disse.
Após a coleta dos dados, que também deve ocorrer no Pará, Amapá, Rondônia, Acre, Mato Grosso, Tocantins e Maranhão, os pesquisadores retornam ao Observatório para analisar o material e elaborar a próxima etapa.
Um projeto solicitando apoio financeiro para o desdobramento da pesquisa de campo já foi feito, segundo a pesquisadora, ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). “O pedido está sendo analisado, mas demora”, comentou.
Dois gigantes
Comparado ao Rio Amazonas, o Rio Hamza apresenta diferenças significativas ao que se refere à vazão, largura e velocidade de escoamento.
Estima-se que a vazão do fluxo do Rio Hamza seja de 3.090 metros cúbicos por segundo, enquanto a do Rio Amazonas alcança 133 metros cúbicos no mesmo espaço de tempo. Mesmo assim, a vazão do rio subterrâneo é superior a do Rio São Francisco, de 2,8 mil metros cúbicos por segundo.
A largura do Rio Hamza varia de 200 a 400 quilômetros contra a de 1 a 100 quilômetros do Rio Amazonas. Já nas velocidades o recém-descoberto é modesto, com uma faixa de 10 a 100 metros por ano. As do Rio Amazonas variam de 0,1 a 2 metros por segundo, conforme as condições hidrológicas locais.
Mapeamento é orientado por temperatura de poços
O estudo, responsável pela identificação da existência de um rio subterrâneo de 6 mil quilômetros de extensão a 4 mil metros de profundidade, embaixo do Rio Amazonas, foi iniciado em março do ano passado e tem como base a análise de dados de temperaturas de 241 poços profundos perfurados pela Petrobras, nas décadas de 1970 e 1980, na Região Amazônica.
A área estudada abrange bacias sedimentares do Estado do Acre, Rio Solimões, Estado do Amazonas, Marajó e Barreirinhas. A metodologia utilizada apoia-se na identificação de sinais térmicos específicos de movimentos de fluidos em meios porosos.
Observações feitas pela pesquisadora Elizabeth dão conta de que o fluxo das águas do rio, batizado de Hamza, em homenagem ao orientador da pesquisa, seja predominantemente vertical até os 2 mil metros de profundidade, havendo logo após esse nível uma modificação quase horizontal.
Com a descoberta é possível afirmar que a Região Amazônica conta com dois sistemas de descarga de fluidos: a drenagem fluvial na superfície, que constitui o Rio Amazonas, e o fluxo oculto das águas subterrâneas por meio das camadas sedimentares profundas.
Descoberta tem peso internacional
A pró-reitora de pesquisa e pós-graduação da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), Selma Bassal, afirma que não será difícil conseguir financiamento para o prosseguimento da pesquisa, uma vez que a descoberta tem relevância nacional.
“O caminho é documentar o pedido de recursos junto ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) via edital”, explicou.
Segundo ela, mesmo a universidade não podendo ajudar financeiramente o trabalho, todos os laboratórios da instituição estão à disposição dos pesquisadores, caso seja necessário.
Entre as instituições que podem fornecer recursos para a pesquisa, segundo Selma, estão o Ministério da Ciência e Tecnologia, a Capes, o Ministério da Saúde, a Superintendência da Zona Franca de Manaus (Suframa) e até mesmo a Petrobras, que forneceu dados obtidos nas décadas de 70 e 80 quando buscava petróleo e que foram utilizados no estudo.
Em carta oficial enviada, no dia 23 de março deste ano, à pesquisadora e ao seu orientador, Valiya Mannathal Hamza, a Fapeam indeferiu o pedido de recursos para a viabilização e execução do trabalho, considerando “que esta FAP não dispõe de recursos para atender a demanda solicitada”.
A Fundação ressaltou ainda “que o valor diferenciado da bolsa concedida aos bolsistas do programa em referência justifica-se pelo mecanismo que esta Fundação utiliza para auxiliar nas despesas das atividades do desenvolvimento do projeto”.
O Departamento de Análise de Projetos (DEAP), da Fapeam, informou que um dos critérios para a liberação de recursos voltados a pesquisa é a análise do projeto e do seu prazo de execução.